Esgrima

O ATLETA, SUA FUNÇÃO SOCIAL E SUAS EMOÇÕES OLÍMPICAS

By 10 de setembro de 2019 No Comments
Por ALBERTO MURRAY NETO, Advogado e Presidente do Conselho de Ética do Comitê Olímpico do Brasil

 

Para chegarmos ao propósito maior sobre a análise dos Jogos Olímpicos, devemos, obrigatoriamente, percorrer um caminho mais amplo, de análise profunda função social do atleta. Uma análise psicológica da evolução do esporte e do esportista na nossa sociedade e o seu desenvolvimento real através do tempo.

 

No final do século XVIII, a sociedade mais aristocrática via no atleta um elemento pernicioso  ao meio. Dizia-se ser o atleta um desocupado, sem ânimo para pensar e sem disposição para trabalhar. Este pensamento atrasado que prevaleceu no Brasil, marginalizou o atleta e é responsável, até hoje, por certas dificuldades que enfrentamos, pois colocou o esporte brasileiro pelo menos uns cinqüenta anos atrasado com relação às nações mais adiantadas. Está sendo difícil recuperar  aquele tempo perdido e a luta que enfrentamos hoje ainda sofre reflexos daquela época.

Mas com o passar do tempo, a sociedade passou a aceitar o esporte como fator de utilidade real na formação da personalidade do indivíduo. O atleta, como um expoente desse novo pensamento, passou a ser visto como um elemento propagador da educação e da cultura. O conceito originário transformou-se. O esporte deixou de ser somente uma forma de entretenimento. Passou, sim, a fazer parte de uma estrutura social e os atletas devem ser encarados com fundamental importância e senso de alta responsabilidade.

Até hoje, tudo aquilo o que se alcançou, representa o produto de um esforço empreendido com o propósito de se edificar o esporte com bases racionais. O esforço individual do atleta abnegado não teve, como logicamente não poderia ter, o cunho de uma organização a nível nacional, organização esta que somente seria possível obter-se desde que fossem concedidos meios para tal. O que eu quero dizer, resumidamente, é que, em tese, o esporte brasileiro aproveitou o que melhor possui, mas, em boa fé, não poderá dizer que os frutos colhidos foram objeto de uma planificação orientada, de uma estrutura consolidada. Isto quer dizer, fundamentalmente, que o esporte brasileiro tem sobrevivido através do esforço individual dos atletas e de alguns dirigentes que, remando contra uma séria de fatores, conseguem levar adiante o seu propósito. Isso é importante em primeiro lugar, para compreender, então, a importância do atleta nesse contexto, como sustentáculo do edifício e, em segundo lugar, para visualizar um pouco melhor os motivos das nossas condições atuais.

Entendo que a figura do esportista é fruto da transformação pela qual o homem passou desde o seu início. Veio do nada e, assim, teve de lutar. E foi lutando que evoluiu. Quando não mais foi necessário empenhar-se nesse combate sem quartel, pela defesa de sua própria sobrevivência, o homem continuou sentindo, como herança de seu passado, a necessidade da luta. A inteligência, os músculos e os nervos guiaram-no. E foi assim, de transformação em transformação, que o homem atingiu esse magnífico estágio de aperfeiçoamento que tanto valoriza a espécie humana, distinguindo-a e destacando-a. E a fim de aperfeiçoar-se mais ainda, o homem permanece lutando em busca de um padrão biologicamente uniforme. É verdade que hoje é um novo mundo, um cenário completamente diverso do anterior, mas continua lutando, sempre preparado para o constante desafio da vida. O esporte – e a figura do atleta – entra justamente como elemento de equilíbrio no conflito resultante dessa contingência.

E aí está a importância do atleta, como um elemento distintivo e destacado da espécie humana. Como alguém que soube aliar todas as possibilidades da sua condição humana, físico e mente, no desenvolvimento da sua personalidade, tornando-se, assim, um exemplo para os seus semelhantes. Os atletas são, portanto, seres superiores. Isto lhes dá extrema responsabilidade de líder, de exemplo a ser seguido. Exemplo este que faz parte de um comportamento, de atitudes e gestos que devem diferenciá-los das pessoas normais. Feito esse quadro, passarei a analisar determinadas questões importantes e polêmicas que fazem parte do cotidiano do atleta e que se relacionam diretamente com a questão do exemplo anteriormente mencionado.

O Brasil sofreu transformações sócio-econômicas muito profundas, as quais vieram por alterar de maneira significativa a vida de todos os cidadãos. Principalmente nos últimos trinta anos, as pessoas foram obrigadas a novas obrigações e deveres. O atleta sofreu as conseqüências dessas transformações e foi, paulatinamente, perdendo as condições mais elementares de um programa de preparação individual. As condições econômicas do país exigiram um sobresforço de cada um. E o atleta, que não fugiu a essa regra, viu tornarem-se cada vez mais exíguas as possibilidades de conciliar a sua vida esportiva com outra atividade qualquer. A atrofia do nosso complexo viário frente ao crescimento de uma cidade como São Paulo,  por exemplo, dificultou o fluxo daqueles que, após o trabalho, buscavam os clubes para exercerem as suas atividades de treinamento. Os próprios clubes, envolvidos nesse cenário, dificultaram o acesso aos seus quadros associativos dos mais pobres. E foi assim que, num dado instante, com o início da interferência da empresa no esporte, desenvolveu- se no Brasil a questão e a ideia do profissionalismo puro. Ou seja, em face dos fatos narrados anteriormente, torna-se praticamente impossível persistir naquele caminho. Os atletas, que até então participavam do esporte por prazer, até mesmo por uma contingência da evolução dos tempos, viram- se   obrigados   a   optar   definitivamente   por   um caminho. E foi o que ocorreu. O atleta de hoje, principalmente o olímpico de alto rendimento, em nível mundial, não é mais o atleta de antigamente. Por motivos imperiosos, passou a viver exclusivamente da sua atividade esportiva, praticamente sem tempo para outras atividades. No entanto, apesar disso, o atleta não pode se esquecer que, acima de tudo, o esporte deve cumprir com a sua função social. O esporte tem por escopo ser um caminho de integração do homem à sociedade, fazendo com que aquele que o pratique passe a ser um elemento cada vez mais útil aos seus semelhantes. E o atleta que quiser sê-lo no sentido mais rígido da palavra, não poderá perder de vista este princípio. O atleta deve ser consciente que o seu período competitivo, se comparado com o período de toda a sua vida, é relativamente curto. E que se durante esse período competitivo ele não procurar um espaço de tempo, por menor que seja, para desenvolver outra atividade, ele poderá encontrar sérias dificuldades no futuro. O atleta que se dedicasse tão somente à prática do seu esporte, correria o risco de, encerrada a sua carreira, tornar- se um elemento sem muita utilidade à sociedade, visto que não saberia exercer outra atividade cujo próprio corpo não lhe permite mais fazê-la. O esporte, nesse caso, estaria contrariando os seus próprios princípios. Os atletas, como elementos destacados da espécie humana, estariam contrários a essa condição superior. Tudo isso está ligado à questão do exemplo. E compreendo que as condições no Brasil não viabilizam facilidades para tal, mas o atleta que conseguiu superar esse obstáculo, tenham certeza, estará não somente cumprindo com o seu importante papel social, como estará, também, ganhando alguns pontos na luta sadia travada nos campos de esporte e, principalmente, no combate pela própria sobrevivência.

Outro ponto fundamental a ser abordado diz respeito ao uso criminoso de substâncias tóxicas que certos atletas vêm utilizando para obtenção de resultados. Isso tem prejudicado não só o meio esportivo, o relacionamento entre os atletas, técnicos e dirigentes, mas também tem prejudicado a imagem que a sociedade sempre fez dos desportistas. Os atletas, em razão de casos constantes de doping, que sempre foram elementos propulsores da educação e da cultura, passaram a ser vistos por alguns como exemplo negativo. Isto é horrível. A coisa, até certo ponto isolada, generalizou-se de tal forma que muitos passaram a acreditar que o uso do “dopping” é uma prática normal e necessária ao treinamento do atleta. Outra vez a questão do exemplo. No meu entender, essa matéria está diretamente associada ao ponto anterior, do profissionalismo exacerbado e sem conseqüências. O atleta deve refletir sobre as cifras milionárias que, muitas vezes, possam estar ao seu alcance. O atleta deve saber ganhá-las, mas sempre com ponderação. Sempre meditando sobre sua condição de atleta, de exemplo, e de sua importância para o meio. É justamente essa falta de ponderação que traz conseqüências desastrosas para o esporte.  Muitos    atletas  não  medem conseqüências para atingir seus objetivos financeiros milionários e, sentindo a necessidade de serem cada vez mais valorizados, recorrem às substâncias dopantes, maléficas ao organismo, que nada tem a ver com a filosofia do esporte. Esses elementos devem ser eliminados definitivamente do meio esportivo. O esporte é uma propaganda para  a vida e não meio de morte.

O esporte nos ensina muitas coisas. Ensina-nos, por exemplo, que numa disputa, o importante nem sempre é vencer; que vencer não quer dizer chegar na frente, mas que a própria auto-superação de nossos limites já significa uma vitória; ensina-nos, também, a sermos disciplinados; a respeitarmos nossos adversários; a termos garra e perseverança; ensina-nos a sermos tolerantes com os nossos próprios companheiros; mas ensina-nos, sobretudo, a manter o ânimo sereno em qualquer circunstância, seja ela de alegria ou infelicidade. São essas coisas, que aprendemos nos campos de esporte, no convívio diário com os nossos companheiros, que devemos aplicar à nossa vida prática, disseminando essa filosofia entre a sociedade em geral. O Olimpismo é uma filosofia de vida. E o papel do atleta é essencial para isso. O atleta não é somente quem fortaleceu os músculos através da prática de um grande esporte. Mas, sim, quem soube entender todo esse conjunto de fatores e, a partir deles, lugar pela construção de um mundo melhor. Repito, o atleta deve ser o exemplo de diversas orientações.

Os Jogos Olímpicos representam a festa máxima do desporto mundial. É o ápice de tudo isso que falamos até agora. Reúne-se para disputá-lo a juventude mais sadia de todo o mundo. Acredita-se serem aqueles que melhor conseguiram corresponder às expectativas. São o exemplo do exemplo. Aqueles que souberem melhor cumprir o seu papel e deixaram de ser paradigma somente de sua própria nação, para assim o serem de todo o universo. E esta é justamente a emoção que deve sentir o atleta que passa a integrar essa nata. Sentir que, ao chegar ali, o atleta superou todos os obstáculos para tal, de qualquer natureza, e que soube cumprir com dignidade o papel que a condição de esportista lhe conferiu. A participação nesses jogos vem por coroar a sua carreira. A responsabilidade do atleta que atingiu tal nível é tão grande que o obriga a redobrar o seu senso de responsabilidade. Vocês bem podem notar a tamanha influência que um campeão olímpico exerce sobre o seu povo. Todas as atenções voltam-se para a sua figura não somente como atleta, mas como cidadão comum. Num instante em que as pessoas estão desacreditadas de seus líderes, o surgimento da figura de um campeão olímpico, límpida e sadia, passa a significar uma nova esperança para a humanidade. É assim que a sociedade encara estes heróis.

De qualquer maneira, as raízes da nossa vida atlética estão construídas de acordo com o pensamento de uma geração que desenvolveu a sua filosofia sob a influência do romantismo, que enxergou na figura de Pierre de Coubertin o expoente de uma doutrina que catalisou consciências que se mantiveram acessas até meados do novo século. Os atletas dessa geração revelaram-se, muitas vezes, extraordinários.

Inegáveis as contribuições dos pioneiros, olímpicos em sua essência, quando o esporte nada mais era do que uma pura profissão de fé. Atletas como Afrânio Costa, Guilherme Paraense, Sylvio de Magalhães Padilha, Lúcio de Castro, José Telles da Conceição, Adhemar Ferreira da Silva, Piedade Coutinho e Maria Lenk elevaram, em épocas duríssimas, sem quaisquer recursos, o nome do Brasil aos patamares do olimpo, em tempos remotos e em época que nosso País vivia praticamente isolado do mundo na área esportiva; e em muitas outras. Para muita gente isso pode parecer coisa do passado. Mas o que eu vou narrar agora é excelente para ilustrar a questão do exemplo, pela qual eu tanto me bati até agora, que se perpetuou através dos tempos. Talvez alguns conheçam a história do marinheiro Adalberto Cardoso nos Jogos da X Olimpíada, realizados em Los Angeles, em 1932. A viagem da delegação brasileira àquela Olimpíada, a bordo do navio “Itaquicê”, pelas suas adversidades, acabou entrando para a nossa história como um folclore.

Parte dos atletas desembarcou na cidade em que se realizaram os jogos, mas outra parte, entre os quais o marinheiro Adalberto Cardoso, foi obrigada a seguir para São Francisco porque não havia dinheiro para pagar a taxa de desembarque de toda a equipe. Lá chegando, cioso de suas responsabilidades, o marinheiro decidiu-se ir a Los Angeles a fim de tomar parte na grande competição. Sem recursos e sem apoio de ninguém, o marinheiro cruzou os cerca de quatrocentos quilômetros que separam as duas cidades pedindo carona e, até mesmo a pé, chegando ao estádio olímpico poucos minutos antes da prova. Sem aquecimento apropriado, o marinheiro competiu na prova dos dez mil metros, classificando-se em último lugar. No entanto, o público tomando conhecimento de sua história, aplaudiu de pé o atleta brasileiro e a imprensa local o qualificou como “Homem de Ferro”. Essa geração, portanto, embasada nos princípios da “Carta Olímpica” deixou exemplos que nunca serão esquecidos e que devem ser preservados.

Sujeitando-se a todas as dificuldades sem qualquer preocupação financeira. Repito, talvez alguns achem que isso é coisa do passado. Mas eu gostaria de terminar dizendo que, enquanto houver na consciência dos atletas de hoje um espaço para o marinheiro Adalberto Cardoso, tenham certeza que, adaptado aos novos tempos, eles serão lembrados no futuro como os “marinheiros” da nossa época.